Terça-feira, 29 de Agosto de 2006

Insólito... ou não... #02

Foi pelo archport que tive conhecimento do que designo como manifesto de Pax Iulia da autoria de M. Conceição Lopes da Universidade de Coimbra. Confesso que fiquei sensibilizado, daí ter decidido, mesmo sem conhecimento ou consentimento da autora, colocá-lo neste blogue. Será que reflecte um pouco o actual panorama da arqueologia em Portugal?

Aqui fica à consideração de quem quiser:

"Não temos nenhuma notícia sobre qual terá sido o impacto que teve na comunidade local a descoberta do envasamento de um grande edifício, certamente um templo romano de plano idêntico ao de Évora, que no ano de 1939 Abel Viana fez nas valas abertas para os caboucos de um reservatório para abastecimento de água à cidade de Beja.
 
O facto de na época ter sido enterrado e não escavado na totalidade, a ignorância a que a cidade o votou posteriormente e a importância que a cidade lhe atribui na actualidade, é surpreendente e absolutamente inversa à importância que a comunidade científica lhe atribuiu. Porque será que a comunidade se alheou do seu passado?
 
Ora, os vestígios que hoje se conhecem no local e se relacionam com o fortíssimo alicerce de um edifício antigo, o estado de conservação em que se encontram as estruturas dos programas urbanísticos que se desenvolveram no local, constituem um fabuloso conjunto monumental e patrimonial relacionado com a colónia romana de Pax Iulia e com outros períodos da história da cidade de Beja. E a cidade parece continuar a deinteressar-se por este património. Porque será?
 
Haverá que encontrar alguém que um dia queira contar a história de uma cidade que desde sempre parece ter ignorado o seu passado; de uma cidade que gasta uma significativa parcela do orçamento do programa POLIS em arqueologia, para no final apresentar como conclusão o que Vasco Mantas, Jorge de Alarcão e M. Conceição Lopes escreveram sobre a cidade; de uma cidade onde as escavações pagas pelo erário público e pela autarquia, entre outras entidades públicas, por razões várias (a necessitarem de ser relatadas) ficam cinco anos paradas - anos suficientes para serem completamente entulhadas por entulhos originados por destruições de muros de propriedades de empresas municipais e nos trabalhos de construção do Conservatório, (involuntariamente, é certo, mas que os responsáveis nunca quiseram remover ou colaborar na sua remoção), entulhos que na maior parte da área atulharam totalmente sectores escavados a cinco metros de profundidade.
 
Na véspera de dar por findos os trabalhos feitos no Logradouro do Conservatório Regional do Baixo Alentejo, depois de duas semanas gastas a retirar os entulhos, sem qualquer apoio, a não ser o apoio financeiro da FCT e do IPA, gostaria de anunciar à comunidade científica que eu de colaboração com alunos do Instituto de Arqueologia da FLUC reencontrámos o alicerce do edifício relatado por Abel Viana e escavámos outras estruturas que se articulam com ele. Que estamos em condições de afirmar que estivemos a escavar no ponto importante da cidade de Pax Iulia, onde os alicerces se mantêm a cerca de 5 (cinco) metros de altura e que ninguém com responsabilidades pelo património local e nacional, apesar dos convites, se interessou por este património.
 
Amanhã quando tapar o local talvez se tenham visto pela última vez os vestígios preservados do núcleo monumental da única colónia romana do sudoeste Peninsular. Mas essa é também outra história. Não pode ser entendida de outro modo que não seja pelo facto de a partir de certo momento um projecto científico, por processo administrativo, ser transformado em escavação de emergência!
 
Mas esta é uma fantástica história para contar! E esta vou eu querer contá-la muito em breve.
 
A história da cidade romana de Beja, também, nada me impedirá de continuar a investigar para a escrever, porque o meu único objectivo é científico!
 
 
M. Conceição Lopes

FLUC/CEAUCP"

 

:
por A. R. às 18:50
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2 comentários:
De Leonel Borrela a 25 de Outubro de 2006 às 21:45
Não deixa de ser pertinente o lamento da Dra. Conceição Lopes acerca do hipotetico desinteresse dos bejenses pelo seu património cultural. Nem com tratamento quimioterapico conseguiria retirar alguma coisa de um mal que já é crónico. Nós próprios, dentro e fora do contexto da nossa "Iconografia Pacense", publicada no jornal Diário do Alentejo, sempre lamentámos a falta de resposta (que inclui critica, da qual nunca tivemos medo, e indiferença quase total ao conteúdo dos nossos trabalhos, etc.), portanto, a tal falta de interesse pela dedicação séria ao trabalho de investigação. EM Beja, sentimos somente apoio do nosso saudoso amigo Túlio Espanca, com quem colaborámos no inventário artistico da área de Beja; dos Drs. Jorge Alarcão e Claúdio Torres, com os quais trocámos impressões salutares sobre a arqueologia de Beja; e chegámos a comentar com amigos, bejenses e não bejenses, a falta de apoio institucional à investigação histórico-arqueológica, quando realizada por uns e não por outros.
A dra. Conceição Lopes bateu no ponto crónico que ninguém , que seja de Beja ou com responabilidades nela, quer ou gosta de ouvir: A cidade é indiferente, de um modo que não sabemos explicar, à sua história. Já o "historiador" setecentista, bejense, Felix Caetano da Silva, dizia que a razão pela qual as coisas se encontravam no mau estado em que estavam deviam-se à pressão de pessoas bem conhecidas de todos, as quais pela sua posição social (entendemos de poder) ele não podia nomear, mas eram bem conhecidas. Ora, em Beja, esses arrobos de verdade são cíclicos e já cá não estão os que mal fizeram; agora são outros a encetar novas relações sociais.
A Arqueologia pode não estar na ordem do dia (nem deve, com os dramas que se passam neste país, no que concerne à fome, à quebra do poder de compra das familias portuguesas, ao desemprego - e não somos politicos, mas não dormimos ) mas, neste momento, não está a ser negligenciada. Existem de facto outras prioridades, mas nunca se preservou tanto a cultura, em Beja, até como uma necessidade básica, como agora. Só que há uma vertente da cultura que, no nosso entender, quando se "desloca" à cidade para mostrar o que vale, deveria dialogar com quem nela vive e, sistematicamente, não o faz.
A revista Arquivo de Beja, segundo sabemos, vai reatar a linha temática que lhe granjeou tanta fama, para gaudio dos historiadores,arqueologos, etnologos, etc..
A cidade de Beja é mesmo uma cidade difícil de entender. Tão depressa publica o que nada lhe acrescentade novo, em termos históricos e arquelogicos, como ignora os vestígios e as singulaidades que todos os dias se lhe descobrem ou apresentam. MAS, ACREDITAMOS QUE VAI, PARA BEM DOS BEJENSES, MUDAR ESSA SUA ATITUDE.
Cumprimentos de Leonel Borrela
De leonel borrela a 3 de Janeiro de 2017 às 19:50
Afinal nada mudou, como eu pensava que ia mudar e, como se pode constatar, ninguém se interessou pelo meu comentário. Em 2017 a hipocrisia continua a reinar na cidade. É confrangedor. LBorrela

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